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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Manifiesto: "Creemos en la Televisión Infantil"


Manifiesto: "Creemos en la Televisión Infantil"

Reunidos en la Universidad Internacional de Andalucía, en su sede de la Rábida (Huelva-España), entre los meses de octubre y noviembre del 2014, con motivo del I Curso de Experto en “Producción de Contenidos Audiovisuales para Público Infantil”; un nutrido grupo interdisciplinar, con representantes del mundo de la industria, el arte y la enseñanza, procedentes de 11 países iberoamericanos, y tras varios meses de debate y puesta en común decidimos por unanimidad, y sin ningún tipo de duda, creer en la televisión infantil.

"Creer en la televisión infantil supone en primer lugar reivindicar su existencia, asumir que los niños tienen derecho a ser reconocidos como un público singular y complejo. Pero supone además plantearse qué es lo que hace que un programa reciba esta calificación ¿su horario de emisión?, ¿su narrativa?, ¿sus fines comerciales?  No creemos en cualquier programa que se autoproclame para niños. No. Creemos en una verdadera televisión infantil.

Creemos en la Universidad y la Academia como agentes fundamentales del proceso de creación de contenidos para los niños. Lo son, porque una fundamentación teórica dota a la televisión infantil de un -más que merecido- reconocimiento como producto cultural digno de estudio. Un objeto poliédrico e ideológico, íntimamente ligado a los procesos socioculturales, que evoluciona y forja conciencias. Creemos en la Universidad, como impulsora del encuentro de los distintos agentes del proceso de producción, que abre espacios de reflexión y replanteamientos permanentes.

Creemos en una televisión infantil que estudia a su audiencia con rigor, que se sirve de la investigación cualitativa para entender al niño más allá de su faceta como consumidor. Estudios que pongan de manifiesto las auténticas necesidades y aspiraciones de una infancia avocada a vivir en una sociedad audiovisual, de una infancia con el derecho inalienable de disponer de una televisión de calidad.

Creemos por tanto que los estados democráticos no pueden ser ajenos a esta necesidad. Creemos en una televisión pública a la vanguardia de la producción de contenidos infantiles, creativa, innovadora, arriesgada. Capaz de competir con las cadenas privadas, pero sin perder su vocación formadora, su sensibilidad social, su localismo y su capacidad de hablar a un niño concreto, geográfica y políticamente localizado, que desea pensar su lugar en la sociedad como ciudadano y no como consumidor.

Y a la vez, y sin ningún complejo, creemos en la industria. Pero no en cualquier industria.Creemos en una industria fuerte y sólida, fuente de trabajo para los profesionales de nuestros países. Industrias nacionales que compitan de tú a tú con los imperios mediáticos norteamericanos. Industrias valientes, sin complejos, que no parasiten las instituciones, sino que sepan ganarse a golpe de calidad el reconocimiento de su público. Una industria comprometida con las nuevas tecnologías, aventurera, que incorpore el uso de las narrativas transmediáticas, los nuevos dispositivos y la participación de los usuarios en sus producciones. Con profesionales formados y competentes, cuyos conocimientos, solo sean superados por la pasión a su trabajo. Creemos en una industria internacional, que sepa competir en el mejor sentido de la palabra. Una industria iberoamericana, que entienda la simbiosis de capitales, profesionales, y cultura como el único camino para hacerse un hueco en el mercado internacional.

Creemos en la televisión infantil, como una forma de cultura, como una necesidad de las sociedades, y como una industria rentable y con futuro. Pero sobre todo, creemos en la televisión infantil porque creemos en el niño. La infancia que es principio y final de todo nuestro proceso, ha de ser nuestro referente y nuestra piedra angular. El niño como un espectador inteligente y con sentido crítico, cuyos derechos no se reducen a consumir lo que la televisión le ofrece, sino a ser interpelado, entretenido e inspirado a partes iguales. Un niño de este siglo que tiene derecho a expresarse, que puede crear y producir contenidos digitales y cuyas producciones deben ser tomadas en cuenta por esa televisión infantil.

Solo así podremos crear una televisión desde y para el niño. Solo así. Asumiendo la responsabilidad que implica volver a nuestros países, mirar al horizonte y decir con convicción:Creemos en la Televisión Infantil".

Firmado: Estudiantes del I Curso de Experto “Producción de Contenidos Audiovisuales para el Público Infantil”

Dirección y Coordinación del Curso: Prof. Dra. Jacqueline Sánchez Carrero, Prof. Mag. Yamile Sandoval Romero, Lic. Enrique A. Martínez López.

Huelva, España. Otoño de 2014.

Para saber más de este I Curso de Experto visita su blog.

Reproduzido de Fundación Audiovisual de Andalucia (03/12/2014) . Via Jacqueline Sánchez Carrero . Taller Telekids
10 dez 2014

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Eduardo Galeano: “O entusiasmo é uma vitamina “E “ - de Entusiasmo


Eduardo Galeano: “O entusiasmo é uma vitamina “E “ - de Entusiasmo

Depoimento de Eduardo Galeano na Praça Catalunya em 24 mai 2011, sobre as manifestações políticas na Espanha.

“O entusiasmo é uma vitamina “E “– de Entusiasmo -, que vem de uma palavra grega que significa “ter os deuses dentro”. E toda a vez que eu vejo que os deuses estão dentro de uma pessoa ou de muitas, ou da natureza, ou das montanhas, ou dos rios, eu digo: isso é o que me falta pra eu me convencer de que viver vale a pena. E que viver está muito, muito, muito além das mesquinharias da realidade política onde se ganha ou se perde… E da realidade individual, também. Ganhar ou perder na vida… isso importa pouco! Em relação com esse outro mundo que te aguarda. Esse outro mundo possível. Que está na barriga deste.

Vivemos um mundo infame, eu diria. Não nos incentiva muito… Um mundo mal-nascido. Mas existe outro mundo na barriga deste. Esperando… E é um mundo diferente. Diferente e de parto complicado. Não é fácil o seu nascimento. Mas com certeza pulsa no mundo que estamos. Um outro mundo que “pode ser”, pulsando no mundo que “é”. Essas manifestações espontâneas na Espanha são prova disso. E alguns me perguntam: “Mas o que vai acontecer?! E depois?! O que vai ser?!” E eu simplesmente digo o que nasce da minha experiência: Bom… Nada. Não sei o que vai acontecer. E não me importa o que “vai” acontecer. Me importa o que “está” acontecendo. Me importa o tempo que “é”. E o que “é” é o tempo que se anuncia sobre outro possível que acontecerá. Mas o que acontecerá no fim, não sei.

É como se me perguntassem quando me apaixono, quando vivo uma experiência de amor a fundo de verdade, quando sinto que vivo e não me importo se morrerei nesse momento mágico de amor, quando acontece. Pois então… O amor é assim! “É infinito enquanto dura”. E é importante que seja infinito enquanto dura. Não temos que planejar tudo como se estivéssemos fazendo o balanço de um banco. Assim: “Dívida, balanço, saldo. Estatísticas, probabilidade. O que nos espera?”. E o que me importa a merda que nos espera?

Esses tecnocratas de quinta categoria… são uns ignorantes! Não sabem nada de nada (“un carago de nada!”) e ganham uns salários imensos! E, em cada crise que eles desatam, acabam aumentando suas fortunas! Porque são recompensados por essas façanhas que consistem em arruinar o mundo! Esse é um mundo ao contrário: que recompensa os seus arruinadores ao invés de castigá-los. Não tem nenhum preso, entre os banqueiros que promoveram, provocaram essa crise no planeta inteiro. Nenhum preso! E, por outro lado, há milhares de presos por terem consumido maconha! Ou por terem roubado uma galinha! Milhares de presos! É o mundo do avesso! Um mundo de merda! Mas não é o único mundo possível. E cada vez que eu me junto a essas concentrações lindíssimas com os jovens, penso: Há um outro mundo que nos espera.

Esse mundo de merda está grávido de outro. E são os jovens que nos levam para frente. Esses jovens excluídos pelas seleções regidas pelos interesses dos partidos políticos, nos quais eles já não votam! Eu tô chegando agora da América do Sul. Os jovens chilenos não votaram lá no Chile. 2 milhões de jovens chilenos não votaram! Não votaram porque não crêem na democracia que oferecem a eles. E quantos jovens não votaram na Espanha? Não sei. Nem foram contados. Mas, dentro dos 10 milhões de espanhóis que não votaram, deve haver muitos jovens. E não é que não acreditem “na” Democracia. Não! O que acontece é que não acreditam “nessa” democracia manipulada, nesse nome seqüestrado pelos banqueiros, pelos políticos mentirosos – “artistas de circo” que oferecem uma pirueta diferente a cada dia.

Havia um velho político no Uruguai, morreu há muitos anos, que não era revolucionário nem nada, era um político do sistema, mas era um homem que conhecia a vida mais que muitos outros. Chamava-se Herrera, falava fanhoso. Quando lhe ofereceram um candidato, na lista do Partido Nacional, perguntado “o que você acha de fulanito para senador?”, ele disse: “Não, não, não! Porque esse é um redondo!” Ele chamava de “redondo” àqueles que ficavam “redondos” de tanto girar. Era verdade! E na realidade política atual há uma imensa quantidade de “redondos”, que ficam “redondos” de tanto dar voltas. E os jovens têm culpa de não acreditar nos “redondos”? Ou são os “redondos” que têm culpa de os jovens não acreditarem neles?

Bom, eu gosto de estar aqui conversando, porque é disso que eu gosto: jogar conversa fora. Se você tivesse me pedido para eu oferecer minha versão sobre o futuro da humanidade, eu teria dito: não! Eu gosto de jogar conversa fora, conversar com meus iguais, porque são iguais a mim. Porque somos todos iguais na luta por uma vida diferente. E tomara que isso siga vivo, porque senão… pra que merda viver? Se não for porque creio em algo melhor que isso? Mas não quero transmitir nenhuma mensagem para a humanidade.

Eu estive aqui conversando, me filmaram e tal… Tudo bem. Mais nada. Mais do que isso não posso, porque não sou um guru de nada, nem sábio… Além disso, confesso: os intelectuais me dão pena. Eu não quero ser intelectual! Quando me chamam de “distinto intelectual”, eu digo: Não! Não sou! Os intelectuais são os que divorciam a cabeça do corpo. Eu não quero ser uma cabeça que rola por aí. Sou uma pessoa! Sou cabeça, corpo, sexo, barriga, tudo! Mas não um intelectual, esse personagem abominável!

Como dizia Goya: “A razão cria monstros”. Cuidado com quem somente raciocina! Cuidado! Temos que raciocinar e sentir. E quando a razão se separar do coração, comece a tremer. Porque esse tipo de personagem pode levar ao fim da existência humana no planeta. Eu não vejo a vida como eles. Eu acredito nessa fusão contraditória, difícil, mas necessária entre o que se sente e o que se pensa. Então, quando aparece alguém que só sente, mas não pensa, eu digo: é um sentimental. Mas quando só pensa e não sente, eu exclamo: Ai, que medo! Que horror! Que coisa espantosa! Uma cabeça que rola!

Essa sabedoria não me interessa mais. Me interessa a sabedoria que combina o cérebro com as tripas. Que combina tudo! Sem esquecer nada! Porque a cabeça sozinha é muito perigosa. É como o louvor ao dinheiro, um hino que se lança a cada dia. “Ah, que maravilha a liberdade do dinheiro”. A liberdade dinheiro é inimiga da liberdade das pessoas. Muito cuidado com o dinheiro livre. É muito pior que um animal selvagem livre. Não! Dinheiro livre não! Foi isso o que provocou as maiores catástrofes da humanidade.

O importante é que nós, as pessoas, sejamos livres. E plenamente conscientes de que somos parte da natureza. Esse foi o mandamento que Deus esqueceu: “Serás parte da natureza. Obedecerás à natureza de que fazes parte”. Deus se esqueceu porque estava ocupadíssimo… Mas está em tempo de recuperar isso.”

Reproduzido em 11 nov 2014

sábado, 11 de outubro de 2014

O professor ensaísta: Literatura, cinema e filosofia deveriam ser os pilares da formação de professores


Entrevista | Jorge Larrosa Bondía

O professor ensaísta

Literatura, cinema e filosofia. Para o espanhol Jorge Larrosa Bondía, estes deveriam ser os pilares da formação de professores, que poderiam, também, treinar a escrita de ensaios, como forma de aprender a organizar os pensamentos

Camila Ploennes

O professor Jorge Larrosa Bondía reivindica uma língua diferente para falar de educação. Segundo ele, os especialistas se apropriaram da linguagem pedagógica e, com ela, constroem posicionamentos do ponto de vista da desigualdade no que diz respeito aos docentes e à realidade da escola. Diante dessa análise, Larrosa - que é professor titular de teoria e história da educação na Universidade de Barcelona, doutor em pedagogia e fez estudos de pós-doutorado na Universidade de Londres e na Sorbonne (Paris) - propõe em sua obra o ensaio como gênero textual acessível a todos e que permite exercitar mudanças no pensamento, na escrita e na vida.

Para Larrosa, educar é estabelecer a relação entre a criança e o mundo; um espaço para o imprevisível. Segundo ele, ao passo que a possibilidade de subverter regras se afasta, não há educação. "Há Mickey Mouse, corporações, futuro do país", afirmou durante o seminário "Educação integral: crer e fazer", que lançou a 10ª edição do Prêmio Itaú-Unicef, em São Paulo, no mês de abril.

Em sua palestra, no auditório da Fecomercio-SP, Larrosa expôs em voz alta o que parece um ensaio. Criticou os "conselhos administrativos de grandes instituições financeiras", o modismo do uso das palavras "inovação", "autonomia", "crítica" e "futuro" quando se fala sobre educação e o personagem mais emblemático da Disney - segundo ele, "um ogro sedutor de crianças que as coloca no consumo". O tom crítico da apresentação foi mantido durante a entrevista exclusiva, concedida, na sequência, à subeditora Camila Ploennes.

Durante a conversa a seguir, Larrosa diz que a tarefa principal de um educador é tornar o mundo interessante e que a arte não é instrumento para isso, mas um fundamento. Também afirma não concordar com os rankings e com o que chama de "obsessão por avaliações" em educação. "Quero dizer: o Brasil, como qualquer país do mundo, tem o direito de viver sua educação no presente e não como se estivesse atrás de alguma coisa", reflete.

No Brasil, pesquisas sobre leitura apontam que o professor brasileiro ainda está aprendendo a gostar dos livros e começando a transmitir esse gosto pelos livros para os alunos. O senhor defende o ensaio como um exercício de modificação no pensamento, na escrita e na vida. Um professor que, além de ser leitor, escreve ensaios se torna um professor melhor?

Essa reivindicação do ensaio tem uma lógica muito concreta. É que a linguagem pedagógica está capturada pela língua dos especialistas, que sempre constroem uma posição do ponto de vista da desigualdade no que diz respeito aos professores: "eu sei o que os senhores não sabem e o que eu sei é muito importante que os senhores saibam". Há essa captura da linguagem pelos especialistas e, em outro extremo, está a literatura. E eu creio que o ensaio é interessante, porque é um híbrido entre uma linguagem que tem certa vontade de expressar conhecimento, certa vontade de dizer algo, ao mesmo tempo em que não se ajusta à linguagem técnica, dos especialistas, dos funcionários, dos políticos. Então a operação tem a ver com isso, com reivindicar um pouco uma língua diferente para falar de educação. A minha mãe foi professora de creche por muitos anos. Hoje ela tem 82 anos. Ela tinha muito talento para contar histórias. Quando ela voltava para casa, tinha uma língua muito bonita para explicar as experiências de cada dia - o que aconteceu com uma criança, com um pai, numa situação escolar. Morávamos numa aldeia muito pequenininha do interior. Quando eu tinha 16 anos, nós migramos para a cidade e, então, minha mãe começou a trabalhar em uma escola que já estava altamente colonizada pela língua dos especialistas. Ela sentiu uma coisa muito particular: que a língua dela não estava autorizada, que não falava a língua dominante e então ela sentiu isso como uma humilhação. Porque ela não dominava a linguagem da psicologia, da psicologia cognitiva, das técnicas de avaliação. E se ela não dominava essa língua, era impossível falar a língua dela. Então eu creio que ao reivindicar um pouco a literatura, o direito de o professor contar histórias, estou reivindicando um pouco a minha mãe. Porque ela tinha uma língua literária, porque era narrativa, mas ao mesmo tempo tinha a vontade de transmitir uma experiência, um conhecimento, uma aprendizagem. E eu creio que essa língua está quase desaparecendo do campo educativo, então todo mundo tem de aprender a falar como os especialistas e isso é um problema, porque essa língua é feia.

Por que é feia?

Porque não diz nada, é muito abstrata e genérica, porque não transmite vida, não está feita para o concreto, para o singular. É uma língua genérica, à qual está ligado o conceito de "geral". Minha mãe não sabia falar "em geral". Então o ensaio tem essa característica de ser uma língua de cada um, uma língua singular.

Quais habilidades treinamos ao escrever ensaios?

Duas são fundamentais. Uma é a capacidade de escrever, algo que não é nada fácil. Eu sou professor universitário e vivo num país onde a maioria dos jovens tem sido altamente escolarizada e, no entanto, não sabe escrever. Um colega, professor do curso de jornalismo, me disse que, de 50 alunos que ele tem, só quatro sabem escrever. Outra é a organização do pensamento, a sensibilidade para buscar a frase adequada. Escrever é sempre uma prática interessante para expor o pensamento e pensar no que se diz.

Para o professor, escrever ensaios pode ser uma forma de autoavaliação?

Sim, porque a escrita de qualquer tipo produz certa exteriorização do próprio pensamento. Ler o que você mesmo escreve é uma das coisas mais horríveis que existem. Você sempre tem a sensação de que não conseguiu escrever o que queria e vê que poderia melhorar aqui e ali. Pode ser um sofrimento, mas o resultado disso pode ser bom.

Na sua obra, o senhor expõe que os romances de formação são muito importantes para percebermos o que somos e como nos tornamos o que somos. Conhecer essa literatura pode ajudar professores e gestores escolares a repensar como a escola se tornou o que é?

Eu creio que sim. Trabalho sempre com a filosofia, mas sempre fazendo relações com o cinema, a literatura e tentando buscar uma forma de expressão que dê certa ideia do singular e do concreto. Pode ser literatura, cinema, artes plásticas, qualquer coisa. E estou cada vez mais convencido de que se poderia organizar uma graduação completa de formação de professores somente com literatura, cinema e filosofia, sem psicologia, sem didática, deixando de fora a língua dos especialistas. Estou cada vez mais convencido de que tudo está na literatura e na arte.

Por quê?

Estou a caminho de Lisboa e lá vou trabalhar por um dia com professores de arte do ensino secundário. O tema geral é "a arte como ferramenta na sala de aula". Eu não gosto de "ferramenta", porque arte não é ferramenta, instrumento, para nada. A arte é um meio puro e não algo que sirva para um fim exterior. Parece que a arte tem a ver com uma representação de que a educação deve estabelecer uma relação entre a infância e o mundo. A tarefa principal de um educador é fazer com que o mundo seja interessante. Nada mais do que isso. A arte é o que nos traz a carga sensível do mundo. A arte é o mundo como cor, como som, como textura, como rugosidade. É como se a arte abrisse a pele do mundo e, portanto, a arte oferece o mundo sensível e não tanto o compreensível. Se a educação tem a ver com relacionar as crianças ao mundo, essa carga sensível do mundo é fundamental. Mas não porque é separada de outras coisas, senão porque é fundamental. O mundo é sensível.

Na sua palestra, o senhor expôs que hoje, quando se fala de autonomia, está se pensando, na verdade, na "construção do sujeito como cliente e como proprietário de si mesmo". Por quê?

Vivemos numa época de privatização, privatização do conhecimento e privatização da própria existência. Estamos em um mundo onde os sujeitos são levados a se considerarem proprietários de si mesmos. Eu tenho o meu corpo, minhas capacidades, meus talentos e tenho de rentabilizar aquilo de que sou propriedade. É uma lógica muito mercantil, muito estranha, considerar a si mesmo uma mercadoria que se tem de vender, um talento que se deve explorar. E me parece que a palavra autonomia vai um pouco nessa direção, em entender as pessoas como proprietárias de si mesmas. Já eu creio que a educação é por natureza comunista.

Como isso se manifesta?

Sabe o que a educação faz de interessante com a arte? Ela coloca a arte à disposição do público. É verdade que quando a arte se escolariza vira outra coisa, mas há uma coisa muito importante que passa por sua escolarização, que é o fato de a escola tornar a arte pública, comum. Arranca-a de seus proprietários e a converte em algo que não é de ninguém e, portanto, é de todos. Há uma palavra para isso, da qual eu gosto cada vez mais, que é "comunização", que não tem a ver com comunicação, mas com comunismo. É tornar comum a todos algo que é privado. E eu creio que a escola faz isso com a arte, que a escolariza e que de alguma maneira a perverte, converte a uma ferramenta e ao que quer, mas faz uma coisa muito importante, que é colocá-la à disposição de todos. Por isso me parece que a escola tem um funcionamento comunista. É nesse sentido que o comunismo tem a ver com a desprivatização das coisas, com fazer com que as coisas não sejam de ninguém, mas sejam de todos. Em que lugar está o mundo comum? Em nenhum lugar, só na educação o mundo se dá como comum e cada vez menos.

Há uma discussão sobre o papel do professor quando se fala em tecnologia na educação. Muitos falam que, com os recursos em sala de aula, o professor passa a ser um mediador do conhecimento. O senhor concorda?

Não. O professor não é um mediador. Existe um invento muito prodigioso que é a sala de aula. Uma sala de porta fechada, onde se reúnem várias pessoas e um professor, juntos, de corpo presente. A sala de aula é um espaço tridimensional, onde as pessoas estão reunidas ao redor de algo que é uma matéria de estudo. Na escola, as pessoas não estão interessadas umas pelas outras, se estão ali é porque estão interessadas pela mesma coisa, que é pelo mundo, pela matéria de estudo. Então o que acontece quando a sala de aula tem tecnologia? Ela se converte em um "entorno de aprendizagem", como se gosta de dizer agora. Esse caráter tridimensional desaparece e esse caráter "comunista" desaparece e cada um está conectado ao conhecimento de uma forma privada e particular. Mas aí a sala de aula desaparece e cada vez mais. Não é mais um espaço tridimensional, é um espaço bidimensional, como é a tela. Minha ideia é a de que cada vez mais nos relacionamos com o mundo por meio da tela, por meio do mundo bidimensional, que não tem profundidade. Quando a sala de aula se converte em um centro de conexões, esse lugar onde cada um se conecta com algo, essa dimensão do que havia de comunitário desaparece. Eu não sou contra as tecnologias, mas me parece que as tecnologias são interessantes e educativas se usadas para construir o que é comum. E se são usadas como maneiras particulares e privadas de relacionar-se com o conhecimento já não são educativas, são outra coisa.

Como elas podem ser educativas?

Quando se usam para o comum. Uma aula é construir uma conversação sobre algo comum. E uma conversação pode ser construída com vários elementos: com textos, com tecnologia, com artes, com o que for. Mas o importante é que tudo isso construa algo comum e não algo particular de cada um. E aí creio que não é uma questão de tecnologia; se é tecnologia ou não. Tem a ver com a individualização. A educação no mundo moderno vai a favor de um individualismo, da separação das pessoas. Então as tecnologias unem as pessoas ou as separam? Unem as pessoas porque as conectam e as separam, porque cada um está com seu computador, com seu Facebook, com sua televisão. Unem e separam ao mesmo tempo. Então as tecnologias são educativas quando unem e não quando separam; quando separam são outra coisa.


Em seu livro Pedagogia profana [Autêntica, 2001], o senhor propõe uma pedagogia emancipadora, libertária. Nesse sentido, qual a importância do humor, do riso, na escola?

Eu escrevi uma vez sobre a dessacralização, como algo que profana o solene, o sagrado. Quando você vai a um evento sobre educação, há vídeos com crianças sorrindo sempre. É uma imagem que virou publicitária demais: o sorriso das crianças, que estão se divertindo, passando bem, felizes. E quando eu escrevi sobre o riso, não foi nesse sentido. Foi sobre a capacidade do riso de dessacralizar saberes. Quando algo se mostra demasiadamente solene, é preciso pôr um nariz de palhaço.

Na imprensa e em eventos sobre educação, muito se fala sobre "países ou sistemas modelos de educação para o resto do mundo". O senhor já foi convidado a dar aulas em universidades de diversos países da Europa e da América Latina. Como vê esse debate?

Não existe tal coisa como um modelo e não gosto nada dessa ideia de rankings. Isso é muito perigoso, porque o ranking é uma comparação, uma hierarquização, faz com que algumas coisas sejam melhores do que outras, países sejam melhores do que outros. Além dessa dimensão vertical, introduzem uma dimensão horizontal de que há coisas mais adiantadas do que outras, têm a ver com o tempo. E então é muito estranho, porque se há um país modelo, quer dizer que estamos atrasados em relação a ele. E nesse caso só conseguimos pensar sobre nós mesmos como atrasados e isso é um problema, certo? Quero dizer: o Brasil, como qualquer país do mundo, tem o direito de viver sua educação no presente e não como se estivesse atrás de alguma coisa.

Nesse cenário, qual o papel das avaliações externas?

Existe uma obsessão por avaliação que é muito perigosa. Eu creio que se dedica mais energia e dinheiro para avaliar o funcionamento dos procedimentos do que aos próprios procedimentos. Não faz muito tempo que um professor universitário dedica 70% de seu tempo a avaliar e ser avaliado, a fazer relatórios para ser avaliado ou a formar comitês de avaliação. E me parece que isso está começando a ser feito na escola primária e na escola secundária, que passam a dedicar mais tempo a avaliações do que a fazer coisas. E isso não pode acontecer, porque a avaliação não pode se converter em uma finalidade em si mesma. Parece que há uma obsessão perversa por avaliação, que tem a ver sempre com o mercado, que diz ser preciso determinar o valor das coisas, dizer que isso vale mais do que aquilo.

Na sua apresentação, o senhor falou que os "ogros amam as crianças" e exemplificou isso dizendo que o nascimento delas é "capturado pelos estados", que têm o intuito de "formar o futuro dos estados e seus povos". Quais são os ogros da educação?

O Mickey Mouse e os bancos, mas deve haver mais. Talvez seja necessário deixar as crianças um pouco em paz. A escola, como quase tudo hoje em dia, está submetida a uma espécie de velocidade vertiginosa. É preciso fazer tantas tarefas e cumprir tantos objetivos, que tudo se torna angustiante.

Reproduzido de Revista UOL Educação (Maio 2013)
11 out 2014

Leia também a entrevista de Jorge Larrosa, "A escola e o supermercado dos prazeres" (2005) no Boletim da UFMG clicando aqui.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Curta-metragem de Taller Telekids (Espanha) ganha o Festival PLURAL+


¡Otro corto de Taller Telekids gana el Festival PLURAL+!!

Síiii! El corto realizado por Aldo Abril Badenas, de 11 añitos, ha ganado el primer premio, en la categoría 9-12 años, que otorga el Jurado Internacional del Festival PLURAL+ 2014!!

Por segunda vez un corto de este taller se hace merecedor del primer lugar del que es, a nuestro juicio, uno de los más importantes festivales del mundo, no solo porque es una iniciativa de la Alianza de las Civilizaciones - Organización de las Naciones Unidas (ONU) y la Organización Internacional de Migraciones (OIM), sino porque pone el enfoque en temas que son fundamentales en la sociedad de hoy: emigración, diversidad, tolerancia, convivencia en paz...

Así que Aldo, de 11 años, creador de esta idea que está realizada con la técnica de la animación stop motion, viajará a Nueva York para la ceremonia de entrega de premios. El 4 de diciembre de 2014 estará marcado como un día  muy especial en la agenda de Taller Telekids.

Compañeros de Taller Telekids versión taller de verano

Esta producción se realizó como taller de verano en el mes de junio en la sede de Escuela QANUN, en el centro de Sevilla. ¡Gracias amigos, pronto estaremos por allá de nuevo con más alumnos!

Los pormenores del corto ganador titulado "Todos necesitamos ayuda" los mostraremos el propio día de la entrega de premios... antes no podemos. De momento solo nos queda dar la enhorabuena a Aldo, a su familia, y a todos los integrantes del taller de verano de este año, que realizaron sus propias producciones y que irán circulando también por otros festivales...!

Reproduzido de TeleKids Educación Mediatica, por Jacqueline Sánchez-Carrero
29 set 2014


Saiba mais sobre Taller Telekids clicando aqui.

Aldo iniciando el proceso de animación del corto ganador!

quarta-feira, 23 de abril de 2014

“Chaplin & Co” cine mudo para niños


“Chaplin & Co” cine mudo para niños


Recordar a Charles Chaplin es, para la gran mayoría, pensar en Charlot, personaje que inmortalizó al actor del cine mudo hace ya 100 años. Este mítico humorista, escritor, productor y director, es la inspiración para una serie de dibujos animados destinada a niños a partir de los 5 años llamada Chaplin & Co. En otras palabras, es el cine mudo creado específicamente para el público infantil aunque colorido y en animación 3d.  Sí, algunos pueden pensar que Charlot es del cine mudo y sacarlo de esa dimensión es una irreverencia pero… no deja de ser una propuesta curiosa y bastante atractiva para los niños…

Emitida por Canal Panda Charlie & Co es una serie de microespacios de 5 a 7 minutos aproximadamente que deleita gracias a la ingeniosa manera de ver la vida de su protagonista. Mantiene la genialidad del actor en lo relativo al género del “slaptick”, (o bufonada) que tanto hace reír a grandes y chicos sobre todo por las bromas exageradas como golpes que no son reales.  La producción de los más de 100 capítulos que llevan se fundamenta en la animación de alta calidad realizada por Emmanuel Gorinstein y Alexandre de Broca, con guiones de Mathieu Kendrick y Vincent De Mul, música (fundamental) de Franck Roussel y Nicolas Richard, bajo la dirección de Cyril Adam y Julien Charles. Una coproducción Bubbles, MK2, Method, DQ, Fabrique d’images con la participación de  France Télévisions.

Cada episodio engancha al espectador pues desde el primer minuto nos hace entrar en el mundo de la aventura, del juego, de la risa…  además a través del idioma universal de la música y los efectos de sonido. Chaplin & Co es una serie de animación en la cual resaltan el color y la técnica, y donde la cámara muestra una gran variedad de planos, se mueve estrepitosamente en las persecuciones y se mantiene fija cuando el protagonista se aleja bamboleándose y moviendo el  bastón en círculos hacia arriba y abajo. Canal Panda cuenta además con una página web donde presenta  a los demás personajes de la serie como el jefe, el chico, la policía o los ladrones. Adicionalmente ofrece curiosidades y datos importantes desde el punto de vista cinematográfico como que Chaplin realizó 78 cortometrajes y 12 películas consideradas obras maestras del cine.

Esta comedia es útil para los docentes, padres y madres: primero, desde la educación en valores pues el personaje es un buen hombre que siempre acaba ayudando a los demás por muy disparatada que sea la situación; y segundo, desde el enfoque de la educomunicación (o educación en medios) pues es un homenaje al maestro del cine mudo, lo que supone la mejor excusa para hablar del buen cine con los niños.

En homenaje al centenario de Charlot, hemos traído esta serie infantil que muestra el día a día de Charlot, con su ingenuidad y su torpeza, compuesta por “gags” cortos tal como nos tiene acostumbrados el Chaplin de toda la vida.  ¿Quieres conocer más sobre este personaje?

Lee 15 cosas que quizás no conozcas sobre Chaplin, donde recuerdan además cuándo comenzó la historia de Charlot: “El hombrecillo del bigote corto, el bombín, el bastón de caña y los andares de pato aparece por primera vez en el cortometraje Kid Auto Races in Venice (Henry Lehrman, 1914) y para siempre se le conocerá simplemente como ‘el vagabundo’. Solo en España y Francia recibe el nombre de Charlot, surgido de la contracción de su propio apellido y del nombre Pierrot, que designa al payaso serio en la Commediadell’arte”.

No hay que olvidar que nosotros tuvimos la fortuna de contar en nuestras vidas con personajes tan especiales como Charlot pero las nuevas generaciones necesitan una guía para encontrar referentes tan importantes dentro de la vorágine de contenidos a los que tienen acceso.

Página web de Chaplin & Co: http://canalpanda.es/chaplin/

Reproduzido de Cine and Cine Infantil
Por Jacqueline Sánchez Carrero

23 abr 2014

Veja também, TeleKids, da autora, clicando aqui.