Mostrando postagens com marcador Livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Livros. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 30 de março de 2015

Severino Antonio: Na educação infantil é preciso escutar



Severino Antonio

Severino Antonio Moreira Barbosa nasceu em Cachoeira Paulista, SP, em 24 de novembro de 1951. Atualmente, Prof. Dr. do Mestrado em Educação do UNISAL, São Paulo, trabalhando principalmente com educação, linguagem, poesia, utopia. Orientou mais de 50 Dissertações de Mestrado. Participou de mais de duas centenas de bancas de Mestrado e Doutorado.

Obras publicadas:

"A Irmandade de todas as coisas-diálogos sobre ética e educação" (Diálogos do Ser – 2010;
“Educação e Conhecimento: uma nova escuta poética - diálogo com Morin. Prigogine e outras vozes” (Paulus, 2009);
“O Visível e o Invisível (A redescoberta do sagrado, O reencantamento do mundo, A matéria amada)” Verus Editora, 2008;
“Novas Palavras” FTD 4a ed. (com Emília Amaral e outros).

*Aprovado pelo MEC, no Programa Nacional do Livro para o Ensino Médio – PNLEM, e adotado em escolas de todo o país;

“Redação: Escrever é Desvendar o Mundo” Campinas-SP, Papirus.23a ed. 2010;
“A menina que aprendeu a ler nas lápides e outros diálogos de criação” Biscalchin Editor – 2008; 
“Educação e Transdisciplinaridade – crise e reencantamento da aprendizagem” – Rio de Janeiro, Editora Lucerna – 2003;
“A Utopia da Palavra – linguagem, poesia e educação: algumas travessias” - Rio de Janeiro, Editora Lucerna – 2003;
“Redação” Nova Cultural 3a ed; (com Emília Amaral e Mauro Ferreira).

Algumas conferências, palestras e mini-cursos realizados, clicando aqui.

30 mar 2015

Acompanhe Severino Antonio no Facebook, clicando aqui.

Entrevista com Marilu Cabañas na Rede Brasil Atual, clicando aqui.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Dicionário feito por crianças revela um mundo que os adultos não enxergam mais

O professor Javier Naranjo e alguns de seus alunos

Dicionário feito por crianças revela um mundo que os adultos não enxergam mais

Na Feira do Livro de Bogotá, um dos maiores sucessos foi um livro chamado “Casa das estrelas: o universo contado pelas crianças”. Nele, há um dicionário com mais de 500 definições para 133 palavras, de A a Z, feitas por crianças.

O curioso deste “dicionário infantil” é como as crianças definem o mundo através daquilo que os adultos já não conseguem perceber. O autor do livro é o professor Javier Naranjo, que compilou informações durante dez anos durante as aulas. Ele conta que a idéia surgiu quando ele pediu aos seus alunos para definirem a palavra criança e uma das respostas que lhe chamou atenção foi: uma criança é um amigo que tem o cabelo curtinho, não toma rum e vai dormir cedo.


Veja outros verbetes do livro.

Adulto: Pessoa que em toda coisa que fala, fala primeiro dela mesma (Andrés Felipe Bedoya, 8 anos)

Ancião: É um homem que fica sentado o dia todo (Maryluz Arbeláez, 9 anos)

Água: Transparência que se pode tomar (Tatiana Ramírez, 7 anos)

Branco: O branco é uma cor que não pinta (Jonathan Ramírez, 11 anos)

Camponês: um camponês não tem casa, nem dinheiro. Somente seus filhos (Luis Alberto Ortiz, 8 anos)

Céu: De onde sai o dia (Duván Arnulfo Arango, 8 anos)

Colômbia: É uma partida de futebol (Diego Giraldo, 8 anos)

Dinheiro: Coisa de interesse para os outros com a qual se faz amigos e, sem ela, se faz inimigos (Ana María Noreña, 12 anos)

Deus: É o amor com cabelo grande e poderes (Ana Milena Hurtado, 5 anos)

Escuridão: É como o frescor da noite (Ana Cristina Henao, 8 anos)

Guerra: Gente que se mata por um pedaço de terra ou de paz (Juan Carlos Mejía, 11 anos)

Inveja: Atirar pedras nos amigos (Alejandro Tobón, 7 anos)

Igreja: Onde a pessoa vai perdoar Deus (Natalia Bueno, 7 anos)

Lua: É o que nos dá a noite (Leidy Johanna García, 8 anos)

Mãe: Mãe entende e depois vai dormir (Juan Alzate, 6 anos)

Paz: Quando a pessoa se perdoa (Juan Camilo Hurtado, 8 anos)

Sexo: É uma pessoa que se beija em cima da outra (Luisa Pates, 8 anos)

Solidão: Tristeza que dá na pessoa às vezes (Iván Darío López, 10 anos)

Tempo: Coisa que passa para lembrar (Jorge Armando, 8 anos)

Universo: Casa das estrelas (Carlos Gómez, 12 anos)

Violência: Parte ruim da paz (Sara Martínez, 7 anos)

Reproduzido adaptado de Repertorio Criativo
06 mar 2015

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Juliana Doretto: Por que gosto de crianças


Por que gosto de crianças

Por Juliana Doretto
Coluna Ruth de Aquino
Época

Esqueça essa história de que elas são puras, angelicais e ingênuas. O ser humano não é assim; e elas não são alienígenas. Também não quer dizer que perto delas nos sentimos mais jovens. Balela: elas têm uma energia que nos faz lembrar como já tivemos mais fôlego. Elas são engraçadas o tempo inteiro? Ao contrário. As menores não se constrangem em mostrar a tristeza e, como num drama televisivo mexicano, aprofundam a dor enquanto podem.

Eu gosto de crianças porque elas são um desafio. Pouco treinadas na arte das regras sociais, subvertem os códigos das respostas esperadas, dos comportamentos aceitáveis, do contrato de boas maneiras. Eu não quero dizer que adoro crianças birrentas e mimadas. Aliás, é comum ouvirmos hoje que os “miúdos”, como se diz cá em Portugal, estão cada vez mais terríveis. Mas não há nada de errado ou diferente com os meninos e meninas de hoje. O que parece ter mudado é o crescimento de uma dificuldade profunda dos pais em mostrar a seus filhos que a vida cotidiana é formada também por tijolos de frustração, entremeados por incompletude em massa.  O processo de educar, no sentido doméstico do termo, é mostrar que fazemos o possível, e conseguimos o que podemos.

A subversão a que me refiro é a resposta malandra, a esperteza de se saber mais inteligente do que seu interlocutor, mas esconder isso. Ou melhor: estar acostumado a sempre ser subestimado, e dar a volta, com brilhantismo, nessas situações. Eu, como pesquisadora e como jornalista, entrevisto meninos e meninas há uns bons anos. Já cansei de contar em quantas situações me senti uma estúpida, depois da argumentação brilhante da criança à minha questão – que eu achava muito bem articulada, até o seu desmonte total.

Não comece, caro leitor, com o discurso de que são as tecnologias que as fazem mais brilhantes do que nós éramos quando crianças. Você e eu já não nos lembramos muito bem das situações vividas na nossa infância. E, pelo que eu saiba, todo pai e mãe babões dizem ter filhos superdotados até que o contrário seja mostrado. E isso desde muito antes do telefone de disco.

Além disso, em minha pesquisa de doutoramento, entrevisto crianças com diferentes graus de uso das tecnologias. E não houve, nesse ponto em questão, nenhuma diferença berrante. A criança é esperta porque está aprendendo a viver num mundo onde poucos acham que ela tenha algo importante a dizer: e isso se refere sobretudo ao lugar que lhes é atribuído por excelência, a escola. Que o digam os bravos professores que lutam contra essa ditadura do silêncio infantil na sala de aula.

Vamos a exemplos, para clarificar meu ponto. Dou um livro a um menino e pergunto se ele gostou: “Não sei, ainda não li”. Pergunto a outro se ele é amigo de todas as pessoas que ele tem no Facebook: “É claro que não. Desde quando amigo do Facebook é amigo de verdade?”. Pergunto à menina se o celular dela já tocou no meio da aula: “Já, foi sem querer, mas eu tento cumprir as regras. Já minha professora atende sempre...” E, no meio da entrevista, a garota disse que o papo estava muito chato, e resolve parar a conversa para tocar violão.

Já o adulto resiste bravamente à entrevista moribunda, e responde a todas as questões do entrevistador, mesmo com ar enfadonho. Afinal, é preciso ser educado. Falar mal de outra pessoa numa conversa com um jornalista? É preciso pensar bem nas consequências do ato. Mostrar que a pergunta do investigador foi estúpida? Melhor não ser rude, ainda que a expressão facial do entrevistado não esconda (por mais que ele queira) sua opinião.

Por isso, para se relacionar bem com crianças que não são nossas filhas ou alunas (ou seja, com quem não temos muita convivência) é preciso, em primeiro lugar, ter respeito. Porque dali não virá o tipo de comportamento a que estamos acostumados. Dali virá uma esperteza refinada e uma sinceridade ponderada: elas já sabem que não podem contar tudo, mas a forma como escolhem o que dizem não está no nosso catálogo social. Faz parte da maneira como elas descobrem o mundo, dos códigos que já absorveram ou não.

Por isso eu gosto de crianças. Porque elas são tão mais bem-humoradas do que os adultos. Elas tiram sarro na nossa cara, e fingem que não têm consciência do que estão a fazer. Com as bobagens que andamos ouvindo em época pós-eleitoral, seria bom aprender com a brejeirice das crianças.


Juliana Doretto . Paulista, jornalista e faz doutorado em Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa

Reproduzido de Época
09 nov 2014

Conheça a página “O Jornalzinho” (Diário de uma pesquisa de jornalismo infantil) de Juliana Doretto, e o perfil da jornalista/pesquisadora, clicando aqui. Mais informações sobre seu livro "Pequeno leitor de papel", clicando aqui.


Comentário de Filosomídia:

Gostei muito de sua crônica e das cutucadas que nos dá para refletirmos a respeito de como nos relacionamos com as crianças - filhas e mesmo as desconhecidas - na vida, em casa, na escola e na pesquisa nesses dias atuais. Nossa "desconcertância" em frente a elas coloca esse desafio de apurarmos nossas percepções e superarmos limites que colocamos nessa relação eventualmente marcada por preconceitos, presunção na "vontade de dominação" delas e, decerto mal humor.

Lembrei de Jorge Larossa em "O enigma da infância" no "Pedagogia Profana" e algumas citações bem provocativas dele, por exemplo, Peter Handke: "nada daquilo que está, constantemente, citando a infância é verdade; só é aquilo que, reencontrando-a, a cita". Você, Juliana Doretto, citou e mandou bem. Obrigado e, vamos que vamos nos desconcertando, des-cobrindo essa criançada e nos des-cobrindo com elas em meio a esse mundo, digamos, tão complicado, que nós insistimos em viver...

Bem ver, bem ouvir e bem falar com as crianças é difícil, é fácil...

Paqonawta

sábado, 11 de outubro de 2014

O professor ensaísta: Literatura, cinema e filosofia deveriam ser os pilares da formação de professores


Entrevista | Jorge Larrosa Bondía

O professor ensaísta

Literatura, cinema e filosofia. Para o espanhol Jorge Larrosa Bondía, estes deveriam ser os pilares da formação de professores, que poderiam, também, treinar a escrita de ensaios, como forma de aprender a organizar os pensamentos

Camila Ploennes

O professor Jorge Larrosa Bondía reivindica uma língua diferente para falar de educação. Segundo ele, os especialistas se apropriaram da linguagem pedagógica e, com ela, constroem posicionamentos do ponto de vista da desigualdade no que diz respeito aos docentes e à realidade da escola. Diante dessa análise, Larrosa - que é professor titular de teoria e história da educação na Universidade de Barcelona, doutor em pedagogia e fez estudos de pós-doutorado na Universidade de Londres e na Sorbonne (Paris) - propõe em sua obra o ensaio como gênero textual acessível a todos e que permite exercitar mudanças no pensamento, na escrita e na vida.

Para Larrosa, educar é estabelecer a relação entre a criança e o mundo; um espaço para o imprevisível. Segundo ele, ao passo que a possibilidade de subverter regras se afasta, não há educação. "Há Mickey Mouse, corporações, futuro do país", afirmou durante o seminário "Educação integral: crer e fazer", que lançou a 10ª edição do Prêmio Itaú-Unicef, em São Paulo, no mês de abril.

Em sua palestra, no auditório da Fecomercio-SP, Larrosa expôs em voz alta o que parece um ensaio. Criticou os "conselhos administrativos de grandes instituições financeiras", o modismo do uso das palavras "inovação", "autonomia", "crítica" e "futuro" quando se fala sobre educação e o personagem mais emblemático da Disney - segundo ele, "um ogro sedutor de crianças que as coloca no consumo". O tom crítico da apresentação foi mantido durante a entrevista exclusiva, concedida, na sequência, à subeditora Camila Ploennes.

Durante a conversa a seguir, Larrosa diz que a tarefa principal de um educador é tornar o mundo interessante e que a arte não é instrumento para isso, mas um fundamento. Também afirma não concordar com os rankings e com o que chama de "obsessão por avaliações" em educação. "Quero dizer: o Brasil, como qualquer país do mundo, tem o direito de viver sua educação no presente e não como se estivesse atrás de alguma coisa", reflete.

No Brasil, pesquisas sobre leitura apontam que o professor brasileiro ainda está aprendendo a gostar dos livros e começando a transmitir esse gosto pelos livros para os alunos. O senhor defende o ensaio como um exercício de modificação no pensamento, na escrita e na vida. Um professor que, além de ser leitor, escreve ensaios se torna um professor melhor?

Essa reivindicação do ensaio tem uma lógica muito concreta. É que a linguagem pedagógica está capturada pela língua dos especialistas, que sempre constroem uma posição do ponto de vista da desigualdade no que diz respeito aos professores: "eu sei o que os senhores não sabem e o que eu sei é muito importante que os senhores saibam". Há essa captura da linguagem pelos especialistas e, em outro extremo, está a literatura. E eu creio que o ensaio é interessante, porque é um híbrido entre uma linguagem que tem certa vontade de expressar conhecimento, certa vontade de dizer algo, ao mesmo tempo em que não se ajusta à linguagem técnica, dos especialistas, dos funcionários, dos políticos. Então a operação tem a ver com isso, com reivindicar um pouco uma língua diferente para falar de educação. A minha mãe foi professora de creche por muitos anos. Hoje ela tem 82 anos. Ela tinha muito talento para contar histórias. Quando ela voltava para casa, tinha uma língua muito bonita para explicar as experiências de cada dia - o que aconteceu com uma criança, com um pai, numa situação escolar. Morávamos numa aldeia muito pequenininha do interior. Quando eu tinha 16 anos, nós migramos para a cidade e, então, minha mãe começou a trabalhar em uma escola que já estava altamente colonizada pela língua dos especialistas. Ela sentiu uma coisa muito particular: que a língua dela não estava autorizada, que não falava a língua dominante e então ela sentiu isso como uma humilhação. Porque ela não dominava a linguagem da psicologia, da psicologia cognitiva, das técnicas de avaliação. E se ela não dominava essa língua, era impossível falar a língua dela. Então eu creio que ao reivindicar um pouco a literatura, o direito de o professor contar histórias, estou reivindicando um pouco a minha mãe. Porque ela tinha uma língua literária, porque era narrativa, mas ao mesmo tempo tinha a vontade de transmitir uma experiência, um conhecimento, uma aprendizagem. E eu creio que essa língua está quase desaparecendo do campo educativo, então todo mundo tem de aprender a falar como os especialistas e isso é um problema, porque essa língua é feia.

Por que é feia?

Porque não diz nada, é muito abstrata e genérica, porque não transmite vida, não está feita para o concreto, para o singular. É uma língua genérica, à qual está ligado o conceito de "geral". Minha mãe não sabia falar "em geral". Então o ensaio tem essa característica de ser uma língua de cada um, uma língua singular.

Quais habilidades treinamos ao escrever ensaios?

Duas são fundamentais. Uma é a capacidade de escrever, algo que não é nada fácil. Eu sou professor universitário e vivo num país onde a maioria dos jovens tem sido altamente escolarizada e, no entanto, não sabe escrever. Um colega, professor do curso de jornalismo, me disse que, de 50 alunos que ele tem, só quatro sabem escrever. Outra é a organização do pensamento, a sensibilidade para buscar a frase adequada. Escrever é sempre uma prática interessante para expor o pensamento e pensar no que se diz.

Para o professor, escrever ensaios pode ser uma forma de autoavaliação?

Sim, porque a escrita de qualquer tipo produz certa exteriorização do próprio pensamento. Ler o que você mesmo escreve é uma das coisas mais horríveis que existem. Você sempre tem a sensação de que não conseguiu escrever o que queria e vê que poderia melhorar aqui e ali. Pode ser um sofrimento, mas o resultado disso pode ser bom.

Na sua obra, o senhor expõe que os romances de formação são muito importantes para percebermos o que somos e como nos tornamos o que somos. Conhecer essa literatura pode ajudar professores e gestores escolares a repensar como a escola se tornou o que é?

Eu creio que sim. Trabalho sempre com a filosofia, mas sempre fazendo relações com o cinema, a literatura e tentando buscar uma forma de expressão que dê certa ideia do singular e do concreto. Pode ser literatura, cinema, artes plásticas, qualquer coisa. E estou cada vez mais convencido de que se poderia organizar uma graduação completa de formação de professores somente com literatura, cinema e filosofia, sem psicologia, sem didática, deixando de fora a língua dos especialistas. Estou cada vez mais convencido de que tudo está na literatura e na arte.

Por quê?

Estou a caminho de Lisboa e lá vou trabalhar por um dia com professores de arte do ensino secundário. O tema geral é "a arte como ferramenta na sala de aula". Eu não gosto de "ferramenta", porque arte não é ferramenta, instrumento, para nada. A arte é um meio puro e não algo que sirva para um fim exterior. Parece que a arte tem a ver com uma representação de que a educação deve estabelecer uma relação entre a infância e o mundo. A tarefa principal de um educador é fazer com que o mundo seja interessante. Nada mais do que isso. A arte é o que nos traz a carga sensível do mundo. A arte é o mundo como cor, como som, como textura, como rugosidade. É como se a arte abrisse a pele do mundo e, portanto, a arte oferece o mundo sensível e não tanto o compreensível. Se a educação tem a ver com relacionar as crianças ao mundo, essa carga sensível do mundo é fundamental. Mas não porque é separada de outras coisas, senão porque é fundamental. O mundo é sensível.

Na sua palestra, o senhor expôs que hoje, quando se fala de autonomia, está se pensando, na verdade, na "construção do sujeito como cliente e como proprietário de si mesmo". Por quê?

Vivemos numa época de privatização, privatização do conhecimento e privatização da própria existência. Estamos em um mundo onde os sujeitos são levados a se considerarem proprietários de si mesmos. Eu tenho o meu corpo, minhas capacidades, meus talentos e tenho de rentabilizar aquilo de que sou propriedade. É uma lógica muito mercantil, muito estranha, considerar a si mesmo uma mercadoria que se tem de vender, um talento que se deve explorar. E me parece que a palavra autonomia vai um pouco nessa direção, em entender as pessoas como proprietárias de si mesmas. Já eu creio que a educação é por natureza comunista.

Como isso se manifesta?

Sabe o que a educação faz de interessante com a arte? Ela coloca a arte à disposição do público. É verdade que quando a arte se escolariza vira outra coisa, mas há uma coisa muito importante que passa por sua escolarização, que é o fato de a escola tornar a arte pública, comum. Arranca-a de seus proprietários e a converte em algo que não é de ninguém e, portanto, é de todos. Há uma palavra para isso, da qual eu gosto cada vez mais, que é "comunização", que não tem a ver com comunicação, mas com comunismo. É tornar comum a todos algo que é privado. E eu creio que a escola faz isso com a arte, que a escolariza e que de alguma maneira a perverte, converte a uma ferramenta e ao que quer, mas faz uma coisa muito importante, que é colocá-la à disposição de todos. Por isso me parece que a escola tem um funcionamento comunista. É nesse sentido que o comunismo tem a ver com a desprivatização das coisas, com fazer com que as coisas não sejam de ninguém, mas sejam de todos. Em que lugar está o mundo comum? Em nenhum lugar, só na educação o mundo se dá como comum e cada vez menos.

Há uma discussão sobre o papel do professor quando se fala em tecnologia na educação. Muitos falam que, com os recursos em sala de aula, o professor passa a ser um mediador do conhecimento. O senhor concorda?

Não. O professor não é um mediador. Existe um invento muito prodigioso que é a sala de aula. Uma sala de porta fechada, onde se reúnem várias pessoas e um professor, juntos, de corpo presente. A sala de aula é um espaço tridimensional, onde as pessoas estão reunidas ao redor de algo que é uma matéria de estudo. Na escola, as pessoas não estão interessadas umas pelas outras, se estão ali é porque estão interessadas pela mesma coisa, que é pelo mundo, pela matéria de estudo. Então o que acontece quando a sala de aula tem tecnologia? Ela se converte em um "entorno de aprendizagem", como se gosta de dizer agora. Esse caráter tridimensional desaparece e esse caráter "comunista" desaparece e cada um está conectado ao conhecimento de uma forma privada e particular. Mas aí a sala de aula desaparece e cada vez mais. Não é mais um espaço tridimensional, é um espaço bidimensional, como é a tela. Minha ideia é a de que cada vez mais nos relacionamos com o mundo por meio da tela, por meio do mundo bidimensional, que não tem profundidade. Quando a sala de aula se converte em um centro de conexões, esse lugar onde cada um se conecta com algo, essa dimensão do que havia de comunitário desaparece. Eu não sou contra as tecnologias, mas me parece que as tecnologias são interessantes e educativas se usadas para construir o que é comum. E se são usadas como maneiras particulares e privadas de relacionar-se com o conhecimento já não são educativas, são outra coisa.

Como elas podem ser educativas?

Quando se usam para o comum. Uma aula é construir uma conversação sobre algo comum. E uma conversação pode ser construída com vários elementos: com textos, com tecnologia, com artes, com o que for. Mas o importante é que tudo isso construa algo comum e não algo particular de cada um. E aí creio que não é uma questão de tecnologia; se é tecnologia ou não. Tem a ver com a individualização. A educação no mundo moderno vai a favor de um individualismo, da separação das pessoas. Então as tecnologias unem as pessoas ou as separam? Unem as pessoas porque as conectam e as separam, porque cada um está com seu computador, com seu Facebook, com sua televisão. Unem e separam ao mesmo tempo. Então as tecnologias são educativas quando unem e não quando separam; quando separam são outra coisa.


Em seu livro Pedagogia profana [Autêntica, 2001], o senhor propõe uma pedagogia emancipadora, libertária. Nesse sentido, qual a importância do humor, do riso, na escola?

Eu escrevi uma vez sobre a dessacralização, como algo que profana o solene, o sagrado. Quando você vai a um evento sobre educação, há vídeos com crianças sorrindo sempre. É uma imagem que virou publicitária demais: o sorriso das crianças, que estão se divertindo, passando bem, felizes. E quando eu escrevi sobre o riso, não foi nesse sentido. Foi sobre a capacidade do riso de dessacralizar saberes. Quando algo se mostra demasiadamente solene, é preciso pôr um nariz de palhaço.

Na imprensa e em eventos sobre educação, muito se fala sobre "países ou sistemas modelos de educação para o resto do mundo". O senhor já foi convidado a dar aulas em universidades de diversos países da Europa e da América Latina. Como vê esse debate?

Não existe tal coisa como um modelo e não gosto nada dessa ideia de rankings. Isso é muito perigoso, porque o ranking é uma comparação, uma hierarquização, faz com que algumas coisas sejam melhores do que outras, países sejam melhores do que outros. Além dessa dimensão vertical, introduzem uma dimensão horizontal de que há coisas mais adiantadas do que outras, têm a ver com o tempo. E então é muito estranho, porque se há um país modelo, quer dizer que estamos atrasados em relação a ele. E nesse caso só conseguimos pensar sobre nós mesmos como atrasados e isso é um problema, certo? Quero dizer: o Brasil, como qualquer país do mundo, tem o direito de viver sua educação no presente e não como se estivesse atrás de alguma coisa.

Nesse cenário, qual o papel das avaliações externas?

Existe uma obsessão por avaliação que é muito perigosa. Eu creio que se dedica mais energia e dinheiro para avaliar o funcionamento dos procedimentos do que aos próprios procedimentos. Não faz muito tempo que um professor universitário dedica 70% de seu tempo a avaliar e ser avaliado, a fazer relatórios para ser avaliado ou a formar comitês de avaliação. E me parece que isso está começando a ser feito na escola primária e na escola secundária, que passam a dedicar mais tempo a avaliações do que a fazer coisas. E isso não pode acontecer, porque a avaliação não pode se converter em uma finalidade em si mesma. Parece que há uma obsessão perversa por avaliação, que tem a ver sempre com o mercado, que diz ser preciso determinar o valor das coisas, dizer que isso vale mais do que aquilo.

Na sua apresentação, o senhor falou que os "ogros amam as crianças" e exemplificou isso dizendo que o nascimento delas é "capturado pelos estados", que têm o intuito de "formar o futuro dos estados e seus povos". Quais são os ogros da educação?

O Mickey Mouse e os bancos, mas deve haver mais. Talvez seja necessário deixar as crianças um pouco em paz. A escola, como quase tudo hoje em dia, está submetida a uma espécie de velocidade vertiginosa. É preciso fazer tantas tarefas e cumprir tantos objetivos, que tudo se torna angustiante.

Reproduzido de Revista UOL Educação (Maio 2013)
11 out 2014

Leia também a entrevista de Jorge Larrosa, "A escola e o supermercado dos prazeres" (2005) no Boletim da UFMG clicando aqui.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Cosmocidão: o universo numa casca de "osso"


Cosmocidadania

1 . Definição. Cosmocidadania é a percepção consciente de que somos cidadão do cosmo, alunos mais graduados da cosmoescola, com os direitos e responsabilidades advindas disso. É tirarmos o RG de cosmocidadão e entrar no engajamento cósmico.

2 . Cidadãos. Nós habitantes do planeta terra ainda não temos a noção da cidadania cósmica. De sermos parte integrante do universo, na nossa poeira cósmica que chamamos de mundo, que ainda achamos que é o centro do universo, que alias, para o ser humano, só existe um, que somos a glória da criação. Que a vida a base de carbono é o primor da criação.

3 . Globais. Ainda nem seque conseguimos chegar a sermos cidadãos globais. Pensamos que o nosso pequeno bairro aonde nós vivemos é o mundo todo e que somos o centro do mundo.

É a nossa religião,
A nossa democracia,
O nosso comportamento sexual,
A nossa civilização,
O nosso estilo de vida

4 . Exemplo. Que deve ser exemplo para os outros povos do planeta. E aí de quem pensar diferente. Defendemos essa verdade absoluta com unhas e dentes.  O pau vai comer. Para isso temos exércitos, armas, armas de destruição maciça, etc.

5 . Cidadão. Para ser cidadão do cosmo alguns pontos têm de ser superlativos: Max maxamizade, Max maxecumenismo, Max multiversalismo, etc.

6 . Engajamento. No engajamento lúcido através do princípio ‘no’ milimetrismo começamos com:

. Consciência participativa - Primeiros passos participando  racionalmente na sua rua, comunidade, associação, trabalho.

. Consciência cidadã - Fiscalizando, cuidando, agindo, opinando, criticando construtivamente, na sua cidade, estado, pais, organismos internacionais.

. Consciência global - Promovendo, divulgando, pesquisando a união entre os povos, entre os países, entre os continentes, através da maxamizade, multiversalismo, maxecumenismo, sonhos lúcidos em todos os níveis.

. Consciência cósmica - último passo dessa caminhada.

Reproduzido de Conscienciocritica
03 jul 2014


Reflexões sobre Professores, Crianças e uma Escola para a Cosmocidadania

Um beijo para todas vocês,
professoras que fazem a diferença nessa des-coberta amorosa do mundo, nesse re-evolucionar das artes na Educação, no ser o melhor de si mesmas para que se dignifique  e respeite o direito que essa meninada bacana tem de viver num planeta melhor, numa pedagogia honesta e comprometida com o Bem Viver...

Dia após dia naquela Escola que me recebeu com tanto carinho, levado pelas mãos da Professora Jucirema, vou me apercebendo cada vez mais que Educação passa por esse saber/fazer/poder/amar que, muiiiiiiiito além do ensinar-aprender, é um processo de DES-COBERTA de tudo e do todo... que não tem fim...

E, vou "sacando" que o caminho é assim, do co-participar e brincar mesmo, num sentido de co-mover, de com-paixão, de con-verter-se numa comum-única-ação contida nessa palavrinha tão simples e en-graçada - cheia de graça - que é BRINCAR...

Com aquele maluco beleza do Frederico - Nietzsche - esse JOGO DA CRIAÇÃO (aiônico) força que sobe das mais profundas entranhas da gente como ser humano mediando o Cosmos, vou des-cobrindo também o que é me deixar numa MENINICE que vibra nessa cosmocidadania, num diapasão com a criançada que faz a gente se sentir humilde e grato no caminho de amadurecimento, de uma Sabedoria que harmoniza informação/conhecimento/saberes/fazeres naquela dimensão de amor, algo tão "natural no universo... do micro ao macrocosmo, na luz que permeia tudo isso...

Eu é que tenho de agradecer vocês que estão se esforçando ao máximo para serem excelentes profissionais nessas lutas da Educação, pela Educação, com a Educação, apesar de tantos desmazelos...

Outra palavrinha boba e pititinha: CUIDAR... 

Cuidarmos e  bem querermos uns dos outros, nos humanizarmos, sorrirmos, sermos gentis e amorosos, com-passivos na ação pro-ativa para alegrar o mundo... relevarmos as pequenas tolices que o estresse do dia a dia nos impõem, porque a única coisa que será eterna em todas as transformações pelas quais todos passam, é que tudo no final das contas, é luz trans-formando e re-criando os universos...

Sejamos luz, assim, dessa que es-clarece ao invés de entristecer... sejamos o melhor de nós mesmos em cada pequeno passo, que um dia todos chegaremos lá na frente, sábios, amadurecidos, cada vez mais responsáveis nas tarefas que assumirmos...

Para vocês Pibidetes e querida Professora Jucirema, meu muito obrigado por essas lindezas que vão re-criando e nem querendo as crianças, uns aos outros e o mundo...

Bem que vejo vocês todas nessas maluquices de sendo professores, vão se trans-formando em crianças...

Beijo

Leo Nogueira Paqonawta
21 nov 2012
PIBID UFSC Pedagogia na SEPEX



Leia também:

"O Universo numa casca de noz", por Stephen Hawking, clicando aqui.

domingo, 18 de maio de 2014

“Constelações”, o novo livro de Severino Antônio


“Constelações”, o novo livro de Severino Antônio

É com a conhecida delicadeza no uso das palavras de seu escritor que o livro “Constelações” dá espaço e voz às crianças, apresentando, por meio de textos e pequenos poemas, a experiência da escuta poética de Severino Antônio com os pequenos.

“A matriz criadora deste livro é precisamente a conversa com as crianças, o acolher a escuta poética que elas fazem. Contrariamente à etimologia da palavra infante, a infância tem voz e precisa ser ouvida.” Assim como Severino escreve na introdução do livro, as 72 páginas de “Constelações“ trazem a reflexão da criança como sujeito, “sujeito ativo e criador de conhecimento e de vida. Sujeito que precisa de diálogos para a educação de sua inteligência, de sua sensibilidade, de sua imaginação”, como afirma o escritor. O livro tem objetivo de conversar poeticamente com leitores de diferentes idades, de dialogar com eles suas experiências de escrever e reescrever o texto da sua existência.

“Os textos, expostos no livro, são impressionantes, parecem criados por grandes escritores, artistas, pensadores. Representam a capacidade de linguagem e de pensamento das crianças, de todas as crianças: não há vida que seja desprovida de sensibilidade, de inteligência, de imaginação. Infelizmente, essa capacidade vai sendo destruída ao longo da vida”, explica o escritor, que defende questões permanentes como não dissociar inteligência e sensibilidade, principalmente na educação das crianças; educar os adultos para que escutem as crianças e valorizem as perguntas filosóficas e imagens poéticas que elas criam; poetizar o pedagógico, para que não seja desfigurado o desejo de conhecer e a alegria de pensar.

A obra é dividida em duas partes. A primeira leva ao leitor textos criados com vozes e histórias de crianças, suas imagens poéticas, suas perguntas filosóficas e seus fazeres criadores. Já na segunda parte do livro uma constelação é formada com pedaços de poemas e outros pequenos poemas; são evocações e invocações com ressonâncias e correspondências. O livro constitui de uma poética de reencantamento do mundo, que concebe a poesia como raiz da linguagem e utopia da palavra.

“Constelações” é o segundo livro do escritor pelo selo Adonis e o primeiro da série “Amigos da poesia”, que reúne a publicação de grandes nomes e revelações da poesia nacional, dentre eles, Rubem Alves, Tarcísio Bregalda, Regis de Moraes, Carlos Rodrigues Brandão e Margareth Brandini Park.

Reproduzido de Azul celeste
12 mai 2014

Currículo Lattes do autor, clicando aqui.

Áudio de entrevista a Marilu Cabañas (Rede Brasil Atual) clicando aqui.


Educar é criação de sentido, formação humana. Essa é a concepção que atravessa as páginas deste livro, que traz uma breve constelação de experiências criativas a ser feitas com crianças, para desenvolver sua capacidade de linguagem e pensamento, de diálogo e convivência, e também para que possam se reconhecer e ser reconhecidas como autoras de palavras, de ideias, de imagens, de ritmos. 

Severino Antônio
Cursou Letras e, mais tarde, o Mestrado e o Doutorado em Educação. Faz quarenta anos que trabalha com ensino de Redação e Leitura, Literatura, Filosofia, e também com formação de professores. Tem ministrado palestras e cursos em muitos lugares do Brasil sobre a questão do desenvolvimento da capacidade de criação no escrever, no ler, no pensar. É professor do Programa de Mestrado em Educação Sociocomunitária Unisal-SP. 

Katia Tavares 
Graduada em Serviço Social e Mestre em Educação pela PUC-Campinas, professora, psicopedagoga, especialista na teoria e programa de desenvolvimento cognitivo e avaliação da aprendizagem, de Reuven Feuerstein, do Centro Internacional de Desenvolvimento do Potencial de Aprendizagem (ICELP), de Jerusalém, Israel. Tem formação em pedagogia Waldorf e fundamentação em Antroposofia; formação em Terapia Biográfica (cursando) e em Filosofia para crianças, de Matthew Lipman. Atualmente é professora no Colégio Drummond, em Lorena (SP), e psicopedagoga no Colégio Emílio Ribas, em Pindamonhangaba (SP). Ministra palestras sobre educação e desenvolvimento humano e áreas afins.

Reproduzido de Editora Adonis

Outras obras do autor:

"Uma pedagogia poética para as crianças" (Adonis, 2013)
"Uma nova escuta poética da educação e do conhecimento" (Paulus, 2009)
"A menina que aprendeu a ler nas lápides" ( Biscalchin, 2008)
"O visível e o invisível" (Verus, 2008)
"Poetizar o pedagógico" (Biscalchin, 2012)
"Escrever é desvendar o mundo" (21ª edição, Papirus, 2010)
"A Irmandade de todas as coisas - diálogo sobre Ética e Educação"(Ed. Diálogos do Ser, 2010)
"Novas Palavras" (FTD, 2011)
"A utopia da palavra" (Lucerna, 2002)
"Educação e Transdisciplinaridade" (Lucerna, 2002)