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terça-feira, 27 de outubro de 2015

Michel Maffesoli: sobre o “sonho, o jogo, o onírico, o lúdico, o imaginário” na educação e na pesquisa em educação


Michel Maffesoli: sobre o “sonho, o jogo, o onírico, o lúdico, o imaginário” na educação e na pesquisa em educação

"A pesquisa só terá futuro se ela estiver de acordo com a vida social, se ela souber propor novas palavras, se ela souber propor novas metáforas, se ela souber propor novas intuições que são, aliás, a origem de todas as grandes descobertas.

(...)

O sistema educativo não corresponde mais à realidade social. É aí que me parece necessário encontrar outro modelo de integração das novas gerações na vida social. É isso a socialização. Cada espécie animal precisa, de alguma maneira, socializar os jovens. A educação foi um modelo. Funcionou, mas não funciona mais. É por isso que propus que, em vez da educação, era preciso voltar à outra maneira de socializar que é a iniciação. Iniciação não é educação. A educação consiste em puxar. A iniciação consiste em acompanhar. Se a educação é moderna, para mim o modelo de socialização pósmoderno será a iniciação. É um problema para você, que é de uma revista de educação, mas acho que a educação não funcionará mais. No entanto, existe um desejo de iniciação. Eu dou um exemplo bem simples. O sucesso de livros e filmes como Harry Potter, por exemplo, repousa essencialmente sobre um esquema que não é um esquema educativo, mas um esquema de iniciação, com provas, com mortes simbólicas, com a integração do imaginário, com a integração do jogo etc. Assim como o modelo educativo era um modelo racional, o modelo de iniciação – que era o modelo das sociedades primitivas, pré-modernas, e, também, pós-modernas, porque muitas coisas da situação pós-moderna vêm da situação pré-moderna – vai se basear nessa expansão. É mais ou menos a mesma coisa que para o trabalho. A criação é uma expansão do trabalho. Para mim a iniciação é um enriquecimento da educação. Trata-se de reintroduzir o que a educação tinha eliminado: o sonho, o jogo, o imaginário."

MAFFESOLI, Michel; ICLE, Gilberto. Pesquisa como Conhecimento Compartilhado: uma entrevista com Michel Maffesoli. Educação & Realidade, vol. 36, núm. 2, mayo-agosto, 2011, p. 523 e 527. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil

Texto completo clicando aqui.


terça-feira, 11 de novembro de 2014

Juliana Doretto: Por que gosto de crianças


Por que gosto de crianças

Por Juliana Doretto
Coluna Ruth de Aquino
Época

Esqueça essa história de que elas são puras, angelicais e ingênuas. O ser humano não é assim; e elas não são alienígenas. Também não quer dizer que perto delas nos sentimos mais jovens. Balela: elas têm uma energia que nos faz lembrar como já tivemos mais fôlego. Elas são engraçadas o tempo inteiro? Ao contrário. As menores não se constrangem em mostrar a tristeza e, como num drama televisivo mexicano, aprofundam a dor enquanto podem.

Eu gosto de crianças porque elas são um desafio. Pouco treinadas na arte das regras sociais, subvertem os códigos das respostas esperadas, dos comportamentos aceitáveis, do contrato de boas maneiras. Eu não quero dizer que adoro crianças birrentas e mimadas. Aliás, é comum ouvirmos hoje que os “miúdos”, como se diz cá em Portugal, estão cada vez mais terríveis. Mas não há nada de errado ou diferente com os meninos e meninas de hoje. O que parece ter mudado é o crescimento de uma dificuldade profunda dos pais em mostrar a seus filhos que a vida cotidiana é formada também por tijolos de frustração, entremeados por incompletude em massa.  O processo de educar, no sentido doméstico do termo, é mostrar que fazemos o possível, e conseguimos o que podemos.

A subversão a que me refiro é a resposta malandra, a esperteza de se saber mais inteligente do que seu interlocutor, mas esconder isso. Ou melhor: estar acostumado a sempre ser subestimado, e dar a volta, com brilhantismo, nessas situações. Eu, como pesquisadora e como jornalista, entrevisto meninos e meninas há uns bons anos. Já cansei de contar em quantas situações me senti uma estúpida, depois da argumentação brilhante da criança à minha questão – que eu achava muito bem articulada, até o seu desmonte total.

Não comece, caro leitor, com o discurso de que são as tecnologias que as fazem mais brilhantes do que nós éramos quando crianças. Você e eu já não nos lembramos muito bem das situações vividas na nossa infância. E, pelo que eu saiba, todo pai e mãe babões dizem ter filhos superdotados até que o contrário seja mostrado. E isso desde muito antes do telefone de disco.

Além disso, em minha pesquisa de doutoramento, entrevisto crianças com diferentes graus de uso das tecnologias. E não houve, nesse ponto em questão, nenhuma diferença berrante. A criança é esperta porque está aprendendo a viver num mundo onde poucos acham que ela tenha algo importante a dizer: e isso se refere sobretudo ao lugar que lhes é atribuído por excelência, a escola. Que o digam os bravos professores que lutam contra essa ditadura do silêncio infantil na sala de aula.

Vamos a exemplos, para clarificar meu ponto. Dou um livro a um menino e pergunto se ele gostou: “Não sei, ainda não li”. Pergunto a outro se ele é amigo de todas as pessoas que ele tem no Facebook: “É claro que não. Desde quando amigo do Facebook é amigo de verdade?”. Pergunto à menina se o celular dela já tocou no meio da aula: “Já, foi sem querer, mas eu tento cumprir as regras. Já minha professora atende sempre...” E, no meio da entrevista, a garota disse que o papo estava muito chato, e resolve parar a conversa para tocar violão.

Já o adulto resiste bravamente à entrevista moribunda, e responde a todas as questões do entrevistador, mesmo com ar enfadonho. Afinal, é preciso ser educado. Falar mal de outra pessoa numa conversa com um jornalista? É preciso pensar bem nas consequências do ato. Mostrar que a pergunta do investigador foi estúpida? Melhor não ser rude, ainda que a expressão facial do entrevistado não esconda (por mais que ele queira) sua opinião.

Por isso, para se relacionar bem com crianças que não são nossas filhas ou alunas (ou seja, com quem não temos muita convivência) é preciso, em primeiro lugar, ter respeito. Porque dali não virá o tipo de comportamento a que estamos acostumados. Dali virá uma esperteza refinada e uma sinceridade ponderada: elas já sabem que não podem contar tudo, mas a forma como escolhem o que dizem não está no nosso catálogo social. Faz parte da maneira como elas descobrem o mundo, dos códigos que já absorveram ou não.

Por isso eu gosto de crianças. Porque elas são tão mais bem-humoradas do que os adultos. Elas tiram sarro na nossa cara, e fingem que não têm consciência do que estão a fazer. Com as bobagens que andamos ouvindo em época pós-eleitoral, seria bom aprender com a brejeirice das crianças.


Juliana Doretto . Paulista, jornalista e faz doutorado em Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa

Reproduzido de Época
09 nov 2014

Conheça a página “O Jornalzinho” (Diário de uma pesquisa de jornalismo infantil) de Juliana Doretto, e o perfil da jornalista/pesquisadora, clicando aqui. Mais informações sobre seu livro "Pequeno leitor de papel", clicando aqui.


Comentário de Filosomídia:

Gostei muito de sua crônica e das cutucadas que nos dá para refletirmos a respeito de como nos relacionamos com as crianças - filhas e mesmo as desconhecidas - na vida, em casa, na escola e na pesquisa nesses dias atuais. Nossa "desconcertância" em frente a elas coloca esse desafio de apurarmos nossas percepções e superarmos limites que colocamos nessa relação eventualmente marcada por preconceitos, presunção na "vontade de dominação" delas e, decerto mal humor.

Lembrei de Jorge Larossa em "O enigma da infância" no "Pedagogia Profana" e algumas citações bem provocativas dele, por exemplo, Peter Handke: "nada daquilo que está, constantemente, citando a infância é verdade; só é aquilo que, reencontrando-a, a cita". Você, Juliana Doretto, citou e mandou bem. Obrigado e, vamos que vamos nos desconcertando, des-cobrindo essa criançada e nos des-cobrindo com elas em meio a esse mundo, digamos, tão complicado, que nós insistimos em viver...

Bem ver, bem ouvir e bem falar com as crianças é difícil, é fácil...

Paqonawta

terça-feira, 6 de maio de 2014

Adriana Alves da Silva: A estética da infância no cinema (Tese de doutorado)

Adriana Alves da Silva, da Faculdade de Educação da Unicamp, fala sobre sua tese de doutorado "A estética da infância no cinema: poéticas e culturas infantis" no Programa "Fala, Doutor" no canal da UNIVESP TV. Entrevista a Rodrigo Simon.

Adriana busca criar um panorama da produção cinematográfica que trate de infância, classificando as produções em: filmes para crianças, filmes das crianças e filmes com crianças.



Universidade Estadual de Campinas
Faculdade de Educação

Tese
2014

Título: A estética da infância no cinema (The aesthetics of childhood on cinema)
Autora: Adriana Alves da Silva
Orientadora: Profa. Dra. Ana Lúcia Goulart de Faria

Resumo: A presente tese de doutorado apresenta os frutos de um processo de pesquisa e criação, buscando articular artes e ciências humanas. Em seu prólogo expõe brevemente o processo de construção do trabalho, destaca os capítulos, suas imagens, emaranhando as trajetórias da pesquisa e a minha de pesquisadora.

A tese está dividida em dois momentos, o primeiro que situa a pesquisa a partir da busca de um entrelaçamento de tempos distintos e complementares de minha trajetória pessoal e acadêmica, no intuito de construir uma linguagem autoral que permitiu criar uma exposição, na qual a forma e o conteúdo do meu tema: a estética da infância e a produção das culturas infantis vão sendo experimentadas entre a descrição narrativa, análise fílmica e as articulações teóricas e literárias.

No segundo momento proponho algumas reflexões sobre o cinema como linguagem audiovisual que permite pensar, criar e construir possibilidades estéticas de uma infância, enquanto tempo a ser inventado e construído na interface das experiências históricas do passado, do presente e do futuro, ou seja, cinemas e infâncias no plural, na diversidade e multiplicidade de pontos de vista. Entre os textos, abri interstícios visuais para potencializar as imagens que estão nas linhas e entrelinhas do texto escrito.

Muitos filmes foram evocados durante a pesquisa, como referências iniciais, busquei as relações entre infância, cinema e memória das Ditaduras Militares no Brasil e na América Latina, trazendo reflexões acerca de “A História Oficial” e “Infância Clandestina” (Argentina, 1985 e 2012 respectivamente), “Machuca” (Chile-Espanha, 2004), “A Culpa é do Fidel” (França, 2006), “O Labirinto do Fauno” e “A Espinha do Diabo” (Espanha-México, 2006, 2001 respectivamente) e “O ano em que meus pais saíram de férias” (Brasil, 2006); somando a estes no percurso, busquei a “criança estrangeira” em “Abril Despedaçado” (2001) e “Mutum”(2006), ambos produções brasileiras.

Neste caleidoscópio de imagens e palavras, buscando construir uma metodologia antropofágica e alquímica, entre outros trago como referências Walter Benjamim, Pier Paolo Pasolini, Andrei Tarkoviski, Fredric Jameson, Leandro Konder, Milton de Almeida. Crianças e infâncias no neo realismo do cinema italiano de Roberto Rosselini à pedagogia da infância e da maravilha de Loris Malaguzzi.

Encerro com um epílogo-experimento criativo, um desvio final para alimentar o pensamento acerca da totalidade desta tese e seu percurso metodológico de pesquisa e criação em educação, elegendo o cinema de autor, político, de poesia como referência. Cinema que constroi e descontroi infâncias, através de filmes para as crianças, filmes das crianças e com as crianças. Em todas as frentes a perspectiva foi e é de contribuir no processo histórico no presente, com as crianças e as culturas infantis que alimentam nossos sonhos e utopias de uma educação emancipatória, transgressora e libertária.

Palavras-chave: infâncias; cinema; estética, educação; culturas infantis.